O SOFICENO

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O SOFICENO

Mensagem  dorito em Seg 17 Jan 2011 - 17:22


DA INFÂNCIA INCOMUM RUMO A BORRASCA



Sempre fui uma criança diferente. Não fui a única de minha geração, haviam outros tão ou mais diferentes do que eu. Sentia-me diferente, tratavam-me diferente. Poucos percebiam que havia algo incomum em minha pessoa, inclusive alguns de meus familiares. Mas haviam aqueles que notavam algo, algo que hoje creio eles não estavam completamente preparados para refletir. Talvez simplesmente não se interessassem em investigar, pois estavam muito ocupados em manter suas semelhanças, apegados ao sonho médio. Objetivo que em última análise levou toda a civilização a ruína.

Não os culpo, muito menos tenho mágoas. Aliás, hoje não há nada em nós além de uma profunda compreensão. Compreendemos que muitos dos nossos entes foram condicionados e incapazes de se libertarem do que denominamos a Grande Teia de Ilusão. Hoje todos sabem que foi necessário que acontecesse assim, e não de outra maneira.

As mudanças geológicas foram insignificantes comparadas às humanas. Mas suficiente para dar início a uma nova época que os estudiosos denominaram Sophiceno. A época sucessora do controverso Antropoceno ou mesmo do antigo Holoceno, que se iniciou com o fim da última era glacial e culminou na percepção generalizada da influência significante das atividades humanas no funcionamento do planeta a nível global.

Numa sociedade onde cada vez mais se combateu as diferenças, doeu muito ser diferente. Ah! como doeu.. Mas afinal, não somos todos diferentes? Uns em maior outros em menor grau? Antigamente ser diferente era algo interessante, curioso, e muitas vezes respeitável. Gradativamente procurou-se excluir as diferenças, sejam quais forem elas, boas ou más, necessárias ou desnecessárias. Aqueles que insistiram em mantê-las foram paulatinamente excluídos, alguns no sentido completo da palavra. Foi como se o inconsciente ou consciente coletivo trabalhasse para que fossemos programados para simplesmente contribuir e manter a materialmente sofisticada e confortável sociedade que surgira, onde a pureza e a criatividade da alma humana pela busca das coisas mais profundas era algo perigoso e em extinção. E por fim tornou-se uma utopia.

Eis um dos motivos da Grande Reviravolta. A maior desde o início dos registros históricos e que hoje todos dizem nunca mais haverá outra maior. Pelo menos não em termos de sofrimento coletivo. Aprendemos a lição. Ah como aprendemos.. Não foi suave como uma criança aprendendo a andar. E a minoria dos que ainda insistiram em engatinhar foi gradativamente perdendo o vigor e desaparecendo, tal qual a espada que percebe ser impossível ferir o vento; por mais poderosa que seja acaba enferrujando ante a soberania implacável do tempo.

Quando criança vivi cercado de confortos e sofisticações materiais trazidas por aquilo que foi o estopim da Reviravolta - o dinheiro e suas consequências. Diziam que o melhor era conquistá-lo, em segundo sempre tê-lo tido, e por último nunca tê-lo conhecido. Hoje compreendemos a superioridade da experiência de tê-lo perdido, pois foi exatamente isso o combustível que culminou na Grande Redenção. No surgimento dos que chamamos libertos. Na verdade nunca perdemos nada, pois nada foi verdadeiramente nosso. Tudo que é genuinamente nosso nem mesmo Deus pode tirar.

Antes da Reviravolta sempre foi constrangedor a manifestação de minhas singularidades, pois só me traziam problemas, digamos, sociais. Mas algo dentro de mim germinava progressivamente ante a cada supressão decorrente da Grande Teia de Ilusão. Algo que com o passar do tempo fui escondendo de mim mesmo para ser aceito pelos mais iguais.

Me tornei um deles, pelos menos em aparência. E houve períodos em que realmente acreditei ter me esquecido da Verdade. Mesmo nesses períodos, ocasionalmente deparava-me com pessoas que me lembravam o quanto estranho eu era. Estranho no bom e no mau sentido. Hoje sabemos que o bem e o mal surgem da mesma árvore, a árvore da dualidade. São faces da mesma moeda. Os libertos apenas colhem da árvore da vida, árvore que não é a do conhecimento do bem nem do mal, por ultrapassar amorosamente a ambos, que são dois estágios transitórios. Compreendemos o significado do fruto da árvore da vida, que foi aquele interditado por nós mesmos no centro do figurativo Jardim do Éden, e similarmente em outras agremiações religiosas.

Quando criança e mesmo depois, nunca consegui me tornar completamente um dos “mais iguais”, por mais que me esforçasse. Aquilo dentro de mim que mais tarde desabrochara não permitia. Foi exatamente isso o que contribuiu para me tornar quem hoje sou. Um dos sobreviventes da Reviravolta e da Grande Redenção, daquela bem vinda borrasca. Afinal, após a grande tempestade veio a grande bonança. A mesma prometida por gerações e gerações de profetas de todo o mundo. Talvez não exatamente como alguns esperavam, mas para nós, os libertos, foi a auto-realização da bem aventurança divina. A união definitiva com o Supremo. A compreensão guiada por aquele divino fruto, apropriadamente reconhecido como Espírito Santo.




Continua..


dorito

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